21 Abril 2012

Pronunciamento do Deputado Federal Domingos Dutra (PT MA) sobre a votação da ADI3238


"[...] Não é possível que, depois de 24 anos da Constituição Cidadã, depois de 124 anos da abolição da escravatura, a mais alta Corte do País sinalize negativamente, deixe sem marco jurídico, abrindo espaço para a violência e para a barbárie contra brasileiros que moram em casas de palha, que não têm acesso à água potável, que não têm acesso à escola, que continuam fazendo roça no toco, carregando a produção em lombo de jegue.
Eu espero que o Supremo Tribunal Federal, por maioria, mantenha o decreto do Presidente Lula.
Muito obrigado."




Acompanhe parte da votação no STF da ADI3239 proposta pelo PFL/DEM e a intervenção dos "amigos da corte". O voto do ministro, como expressão dos conflitos, foi um bom exemplo dos descaminhos do governo brasileiro na garantia de direitos constitucionais dos quilombolas.


28 Março 2012

Não há liberdade pela metade

O dia 19 de março é celebrado no Espírito Santo como a data da Revolta de Queimados. Elisário, Chico Prego e João da Viúva estão entre aqueles que se opuseram à violência da escravização e tornaram a promessa da liberdade um fato concreto.

163 anos após a revolta que levou centenas de escravizados a se rebelarem, e anunciarem a própria liberdade, acompanhamos com apreensão os destinos do quilombo de São Cristóvão, no município de São Mateus, estado do Espírito Santo.
A comunidade se constituiu ainda no século XIX após o fazendeiro abandonar as terras que ficaram com as famílias que ali passaram a trabalhar e prosperar. Como mostra a memória dos quilombolas, as terras que não continham registro foram griladas em processos violentos e as terras remanescentes foram mantidas como patrimônio indiviso do grupo de mais de 50 famílias. Este não é um caso isolado, mas o cenário dos mais de trinta quilombos no norte capixaba, que passaram a reivindicar seus direitos diante do Artigo 68 Constituição Federal de 1988.
Ao longo de várias décadas, os quilombolas se mobilizaram através de sindicatos de trabalhadores rurais, associações afro-culturais, movimento negro e organizações quilombolas resistindo à discriminação racial e à manutenção do cativeiro ideológico que reproduz as desigualdades econômicas e sociais na cidade.
Após os trâmites legais do INCRA, o processo de regularização e titulação das terras do Quilombo de Serraria e São Cristóvão foi concluído em 2006. No entanto, um intenso ataque da elite agrária capixaba ameaça a segurança jurídica do direito constitucional quilombola, utilizando a coação moral e diversas ameaças aos seus Direitos Humanos.
Os quilombolas do estado estão mobilizados para impedir que ocorra o arquivamento de seu processo de titulação, colocando fim à sua expectativa de manutenção na terra ancestral e de sua autonomia. Ao mesmo tempo temem pelas ações violentas que tem levado até mesmo os funcionários federais à intimidação e suspensão de diligências federais no quilombo.
As agências do estado brasileiro criaram as condições institucionais para o reconhecimento dos direitos quilombolas, mas a insegurança jurídica e o aparelhamento político são problemas ainda não contornados pelos órgãos de defesa dos direitos quilombolas como a Justiça Federal, a SEPPIR, a Fundação Palmares e o Ministério Público.
Vai aqui o nosso reconhecimento da luta pela liberdade dos quilombolas e solidariedade ao povo de Serraria e São Cristóvão neste 19 de março, data de tantas revoltas contra o único projeto das elites agrárias: o cativeiro.

07 Março 2012

Quilombolas do Sapê do Norte na reunião brasileira de antropologia 2012

GT61 Quilombos territorialidades específicas e conflitos 
Cíntia Beatriz Müller (UFBA) – Coordenador, Cynthia Carvalho Martins (UEMA) – Coordenador, Rosa Acevedo (UFPA) – Debatedor, Alfredo Wagner Berno Almeida (UEA) - Debatedor e Eliane Cantarino O'dwyer (UFF) – Debatedor.

O objetivo do Grupo de Trabalho consiste em refletir sobre os processos diferenciados de territorialização das comunidades remanescentes de quilombos e sobre os obstáculos que têm sido colocados ao reconhecimento de seus direitos territoriais. A reestruturação formal do mercado de terras, a expansão do mercado de commodities e grandes projetos governamentais tem criado condições de possibilidades para o surgimento de artifícios jurídicos e de mobilização de parlamentares conservadores contra as conquistas das comunidades quilombolas. Pretende-se discutir os efeitos destas tentativas de flexibilização dos direitos quilombolas, privilegiando realidades localizadas e as coalizões de interesses no plano nacional. Atividade proposta pelo GT Quilombos/ABA.


Condenados na terra? Comodato, controle e disciplinamento nos quilombos do Espírito Santo

Sandro Silva (antropólogo e professor na UFES)

Resumo

A comunicação analisa a produção e administração da diferença por aparatos empresariais entre os quilombolas do Sapê do Norte [São Mateus e Conceição da Barra - ES]. A partir do cenário do conflito entre as empresas de commodities da celulose e os quilombolas, proponho compreender como as relações do capital se mantém com base na reprodução da servidão. Como objeto de análise estabeleço duas linhas de fuga: a primeira mostra como as identificações quilombolas se produziram a partir da construção de fronteiras e mediações específicas com o capital e na segunda, analiso a proposta da empresa Fibría em implantar o regime jurídico de comodato nos quilombos. Por meio de dispositivos de governo do Outro, a empresa pretende reescrever os modos de produção e reprodução dos quilombolas sujeitando-os ao controle e disciplinamento. Concluo a comunicação interrogando-me se as Ações Afirmativas públicas estariam servindo de inspiração à remodelagem dos direitos étnicos, delegando-os às práticas tutelares privadas de subalternização.


Palavra-chave: quilombos, Sapê do Norte, estado do Espírito Santo, Fibría.

22 Dezembro 2011

Um mundo dividido


(a propósito e Ferreira Gullar em http://avaranda.blogspot.com/2011/12/preconceito-cultural-ferreira-gullar.html?showComment=1324567418375)

Cultura e poder sempre andaram de mãos dadas. Ferreira Gular, o poeta de tantas críticas à Ditadura Militar, que o diga. Ele escrevia tomando um ponto de vista substantivo, que fazia sua obra ser admirada por seu público. Não se aplicava um substantivo à sua obra. Ela não é preta nem branca. Ela era “suja”. Ela era apenas poesia. A boa poesia da gente burguesa, aquecida no inverno e refrescada no verão.  Que fala sussurrando seus sorrisos complacentes, que alimentam a si mesmos nos periódicos de amigos. Sentada confortavelmente em suas poltronas fundas e recebendo prêmios de colegas “embora o pão seja caro e a liberdade pequena”. Nós, que não somos os seus “morenos”, que não fazemos só o seu samba e o seu carnaval, que não somos a “grande contribuição à este país”, como se isso fosse uma lápide onde se depositam florem anualmente. Nós não falamos uma língua que se vê detida em uma loja de bolsas na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, esperando o por do sol e a musa. Paisagem idílica onde cruzam marmitas frias e lenços amarrados à cabeça em silêncio silenciadas. Cultura e poder sempre andaram de mãos dadas. Mão esquerda com mão esquerda. Mão branca com mão branca. Nossa ditadura foi diferente. Vocês querem saber? Ela perdura até hoje. Não é sociedade brasileira que morre na mão do estado. São os jovens pretos. Não é natural que eu me levante contra estas letras arrumadas ao acaso, que dizem que não dizem o que dizem. Eu busco exumar os substantivos que os senhores resumiram: cultura brasileira, riqueza da nação, distraídos das vozes do outro lado da rua, do saguão, da portaria, do catre noturno de suas insônias. Não dividam o mundo já dividido, que nossa palavra quer unir, mas não antes de encará-la de frente, nos olhos e com todas as palavras. Não estamos destituídos de fundamentos. Nossos fundamentos são novos e velhos. Essencialmente, eles não são os seus fundamentos. Sem os eufemismos do seu universalismo, estamos os abandonando, saindo do raio de seu desejo de controle ancestral, sua segunda pele que é dissuadir o desejo alheio. Nós já nos reconhecemos, temos nossas vitórias e sabemos quem nos diz não, dizendo que é tolice ou má fé.

07 Dezembro 2011

Incra e os desafios para regularização dos territórios quilombolas: algumas experiências.

Este livro é o resultado de uma iniciativa do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária de reflexão sobre os pro- cedimentos da regularização dos territórios quilombolas a partir dos novos marcos legais constituídos pela gestão do presidente Lula no que se refere ao Decreto no 4.887 de 20 de novembro 2003, o qual regulamenta o proce- dimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e ti- tulação das terras ocupadas por comunidades remanescentes de quilombos. O Ministério do Desenvolvimento Agrário, por intermédio do Incra, tem a incumbência de executar o que estabelece o artigo 68 do Ato das Dis- posições Constitucionais Transitórias da Constituição Brasileira de 1988, que diz : “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos” e de implementar os princípios regedores da Convenção no 169 da Organização Internacional do Trabalho – Convenção sobre Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes – mes- mo antes de promulgá-la por meio do Decreto no 5.051, de 19 abril de 2004. (...)
(leia a íntegra do livro clicando no título)

05 Dezembro 2011

Patrimônio etnográfico e ciclos econômicos


Sandro Silva > antropólogo e professor na UFES
saandro@gmail.com

Quando a SECULT me propôs o tema “Patrimônio etnográfico e ciclos econômicos” eu senti que se tratava de um desafio do qual eu não podia abrir mão. Quando fiquei sabendo que se tratava de um público de professoras(es), me senti mais estimulado e quando vi que era em São Mateus, o convite me pareceu uma honra. Trabalhei com as populações indígenas, religiões de conversão e afro-brasileiras e populações afrodescendentes na cidade e no campo, e considerei que poderia compartilhar alguns destes caminhos com público tão seleto. Então, quero fazer um convite ao debate de idéias, sempre indicando que trata-se aqui de um espaço para nos interrogar livremente, coisa que o ambiente escolar muitas vezes não nos permite e mesmo nos desencoraja.

O tema e o método
Meu tema tem haver com realidades muito próximas, mas que são tratadas como distantes. O que meu trabalho tem haver com Patrimônio e o que eu tenho haver com os ciclos econômicos? Vamos falar de identidades que aprendemos a defender e que para nós são como uma pele, a linguagem com que aprendemos a nos relacionar, viver em família e defender nossos ideais. Assim, teremos que “estranhar o familiar” se quisermos nos conhecer um pouco mais. Ou seja, temos que assumir uma posição de conhecimento em que o “familiar” vai se tornar “estranho”. Por um breve espaço de tempo, os nomes perderão sua realidade e os valores, a eles atribuídos, serão por nós questionados. Vamos ficar por um momento sem o chão que aprendemos a pisar, para compreender que há outros caminhos.



A sociedade e suas interações
Todos vivemos conectados por relações sociais. Viver em sociedade é manter estas relações compreendendo que elas mudam, agem umas sobre as outras e requerem de nós a correspondência constante. Este conjunto de ações que se revelam na vida social podemos chamar de interação social. A interação social é o que nos torna seres humanos desde os primeiros anos de vida ou mesmo dentro da barriga de nossa mãe onde nome, personalidade e até mesmo humor nos é atribuído sem mesmo termos nascido.
Há diferentes níveis de interação social. Desde aquelas mais amplas que nos leva a falar de sociedades e nações, até aquelas que nos falam da vida na esquina, das conversas de boteco, no cafezinho do intervalo das aulas. Estamos interagindo mesmo quando ficamos sós com os nossos pensamentos.
Interagir é levar em conta o que o Outro pensa, sente e faz com tudo isso o tempo todo. Muitas vezes, no entanto, as interações são fruto preconcebido do que seja este Outro. Por exemplo, os governantes sabem que não podem entender o que cada pessoa considera apropriado para um bom governo, então, eles imaginam que determinados símbolos podem significar a unidade da nação e criar, em torno dela, alguns consensos que lhes permitam falar da unidade nacional.
Assim, cremos que somos brasileiros porque nascemos no Brasil. Através de um conjunto de documentos e ações jurídicas nos tornamos cidadãos brasileiros. Também cremos que somos brasileiros porque nascemos dentro de um perímetro denominado “fronteira geográfica” que pode ou não coincidir com o espaço físico do Brasil. Todas estas operações de se tornar brasileiros acaba por nos fazer esquecer o que é o Brasil. A imaginações sobre o que é o Brasil e os brasileiros, simplesmente desaparece de cena. Nós “naturalizamos” estes lugares e passamos a viver neles.
A imaginação torna-se um dos aspectos centrais na construção das interações sociais porque ela cria um espaço confortável para que nós possamos viver nele sem ter que nos perguntar o tempo inteiro sobre nossa identidade. Seria bastante difícil ter que acordar todos os dias e, ao se olhar no espelho, fazer o download do programa que nos lembra de ser brasileiros. A gente apenas veste a roupa, ouve o noticiário tomando o café da manhã e vai para o trabalho.
Mas, a imaginação não é uma mentira. Ela é verossímil, ou seja, nós apenas cremos que Tiradentes foi o precursor da República, que a Amazônia é o pulmão do mundo e que o Plano Real salvou o país da falência. A imaginação é uma espécie de acordo do qual nos esquecemos coletivamente. Assim vivemos melhor, deixando aos especialistas a minúcia do que isso realmente significa, e nos ocupando de nosso cotidiano. Mais ou menos!

O espaço e a memória
No tema que proponho discutir aqui “Patrimônio etnográfico e ciclos econômicos”, a imaginação é um tema central. É impossível falar de “patrimônio”, de “etnografia” e de “ciclos econômicos” sem antes considerarmos que estas são palavras socialmente construídas. Também, devemos levar em conta que elas foram imaginadas segundo critérios próprios e projetos de sociedade específicos, não sendo o resultado de um pensamento universal e natural, mas muitas vezes o resultado de ações violentas e imposição de modos de pensar hegemônicos.
Assim, ao pensar nestas palavras tão significativas, o que vai nos interessar aqui é “como” e “por quem” elas foram imaginadas e quais as consequências desta imaginação para nós hoje. Patrimônio, Etnografia e ciclo econômico de quem e para o que? Estas perguntas são fundamentais para não cairmos na naturalização da história e nos tornar reféns do senso comum.
Ao nascermos está em jogo o desenvolvimento de um novo ser, mas dentro de determinados constrangimentos socialmente determinados. Por exemplo, somos mandados para a escola com a justificativa de aprender e sermos educados. Mas, o que isto realmente significa? Junto com os conteúdos escolares aprendemos também os ritos sociais que nos tornarão aptos a desenvolver os papéis masculinos e femininos. Aprenderemos que a equação do segundo grau só se aprende depois da oitava série, mas também que a turma “A” do matutino tem melhores alunos do que a turma “D” do noturno.
Em resumo a escola nos ensina muito mais que equações, regras gramaticais ou os efeitos de um grito com uma espada erguida às margens do Rio Ipiranga. Ela nos faz experimentar a classificação das pessoas ao longo do tempo e do espaço, naturalizando os lugares nos quais as pessoas estiveram, estão e estarão. Ela nos ensina sobre como as instituições nos ajudam a entrar na sociedade e jogar o seu jogo. Mas, para isto devemos aprender um pouco que isto se dá no plano da memória coletiva.
A memória se transforma para nós não apenas como o ato de lembrar, mas os conteúdos e as formas pelas quais lembramos coletivamente. Entramos no “jogo da vida”, assumindo algumas memórias como naturais e outras como não naturais, é fundamental para que a sociedade funcione. Para isto formulamos algumas palavras-chave como “formação do povo” que vai nos orientar basicamente nos caminhos históricos e sociais que constituíram a “nação brasileira”. De repente estamos repetindo em coro que a sociedade brasileira é formada por três raças, etc. Lembremos que isso é uma imaginação naturalizada, com resultados bem definidos.
Assim, a vida da nação é o resultado desta imaginação organizada pela memória coletiva. Nos emocionamos com a imagem do gol do Pelé, os mais velhos ainda discutem se a Ditadura Militar foi “Golpe” ou “Revolução” e os jovens de menos de 30 anos são educados dentro do sonho do Pré-Sal. Getúlio Vargas foi o “pai da nação” porque ele a reinventou após várias décadas de tentativas vãs dos primeiros republicanos. Até mesmo a sua morte se transformou, não em um evento individual, mas em um rito da nação. Pensar no “Patrimônio etnográfico e ciclos econômicos” nos leva ao centro onde a imaginação da nação se encontra, ou seja, ao coração das relações de poder.

Imaginação e poder
Se as interações são fruto preconcebido do que seja este Outro, como nos livrarmos destes preconceitos? O primeiro passo talvez seja conhecer as formas pelas quais este Outro aparece nas nossas imaginações ou, melhor dizendo, como fomos levados a imaginar este Outro. Vou fazer referência a dois grupos sociais que foram imaginados no contexto de São Mateus e procurar perceber de que maneira eles foram imaginados. Negros e italianos serão nossos seres imaginados a nos guiar pela desconstrução e desnaturalização destes Outros.
Para desconstruir estes “sujeitos históricos” é preciso desconstruir o tempo e o espaço nos quais eles foram fixados pela nossa imaginação. Parto do pressuposto de que a ocupação do espaço por populações humanas é fruto de alguma ordem: histórica, econômica, social, mas, sobretudo pela imaginação delas. No caso destes dois grupos, os projetos de nação que estão ligados à eles são distintos, pois eles ocorreram em momentos distintos da história. Cada um deles se construiu com uma imaginação distinta no espaço, produzindo lugares também distintos, mas que se tocam em determinadas ocasiões. As identidades negras e italianas são objeto da ação humana e o seu resultado estético e político é fruto das interações entre grupos e indivíduos.
O segundo pressuposto é que não há o Outro sem um Nós, ou seja, se como mostrei acima, as interações definem a vida social, em algum momento no estado do Espírito Santo, “ser negro” é o resultado de interações com o ser “italiano” e vice-versa. Isto quer dizer que, de um ponto de vista antropológico e histórico a negritude e a italianidade são produzidas como condições históricas e não como o resultado das essências objetivamente demonstráveis de cada grupo ou a suposição de uma raça, mas sim de identificações. Os cabelos loiros não se definem em relação aos cabelos loiros, mas às propriedades de outros cabelos.
O terceiro é que eles foram imaginados por agentes e conjunturas institucionais e históricas. Italianos e negros são invenções de estados nacionais preocupados em administrar a diferença, ou seja, instituições preocupadas em contar a história da “frente para traz”, naturalizando os “fracassos” e os “sucessos”. Como estes grupos foram classificados, guarda relação com o “como” eles foram criados por conjunturas histórias e econômicas e relações de poder específicas. No Brasil só conseguimos pensar o “negro” ligado à escravização. Não o pensamos como um agente da democracia moderna. As políticas públicas sempre mencionam este “lugar eterno” que os ex-escravos devem ocupar no imaginário nacional. Assim, nos acostumamos a falar e pensar “negro escravo” e não “africano escravizado”. Condição social não é identidade social. O processo de nacionalização destes grupos fixou um lugar que reluta em sair de nossas memórias.
Os negros receberam esta classificação antes mesmo de chegarem ao Brasil escravista e antes mesmo do Brasil existir. Estamos falando de grupos que habitam um continente com muitas identidades e línguas que foi colonizado e dividido em países de forma violenta. Já os italianos receberam este nome após a unificação de várias pequenas republiquetas em um estado nacional que hoje se chama Itália, no século XX. Estas relações precisam ser compreendidas para chegarmos a entender quais projetos e quais relações de poder a constituíram. No Brasil, os italianos passaram a significar uma nação e os negros, uma cor da pele e uma raça. É comum dizer-se descendente de italiano, mas raro dizer-se descendente de africanos. A África foi banida do imaginário da nação brasileira senão quando o assunto é escravidão negra. Esta redução sociológica dos dois grupos foi decisiva na memória nacional.  Ela pode nos dar uma pista do porque alguns conflitos permanecem vivos nas trajetórias destes grupos a reivindicar soluções nas novas conjunturas.
Deste ponto de vista, pensar-se como “negro” é tão artificial quanto “italiano”. Estas categorias de inclusão tiveram um momento de violência simbólica que foi incorporada por alguns grupos, mas não por outros. Mas isto não quer dizer que eles não sejam vividos como realidades muito concretas e que não despertem emoções tão fortes a ponto de pensarmos que elas podem ser apresentadas publicamente em reivindicações políticas e direitos sociais. Pelo contrário, estas identificações são vividas como verdades bastante naturalizadas.

Desnaturalizando a imaginação
Como negros e italianos são apresentados no imaginário mateense? Nada melhor que recorrer aos documentos oficiais e ao imaginário para ver como as relações de poder classificam as identidades. Sugiro abaixo uma reportagens sobre políticas públicas e duas matérias que procuram escrever a história de São Mateus. Nela poderemos visualizar as formas pelas quais as identidades são construídas a partir de imaginários distintos sobre quem é quem na “formação da cidade”.
Meu objetivo é compreender os instrumentos do imaginário nacional a “administrar a diferença”, ou seja, por que reduzir as possibilidades infinitas de identificação social à “democracia racial” como o ideal de paz e convivência social? Será que ela não fala um pouco do desejo de controlar a diferença? Quem pretende escrever a história quer sempre ter à suas mãos os instrumentos de controle do Outro?
A “democracia racial” não consegue seus objetivos porque há histórias subterrâneas que inferiorizam determinados grupos na construção da história dos ciclos econômicos e que levam sempre à reação e à resistência. Os indígenas, por exemplo, sempre são retratados em guerra com o “colonizador” que é classificado como “desbravador”, “pioneiro”, menos como assassino. Aos negros africanos, que tem mais de 300 anos de história na cidade, é reservado o tímido rótulo de produtores de farinha e rebeldes que não queriam trabalhar. Ao contrário, os brancos são retratados primeiro como “colonizadores” e depois como os únicos com engenho o suficiente para tirar a sociedade mateense de sua estagnação. Rapidamente a “democracia racial” se transforma em naturalização do domínio de um sobre os outros e as diferenças econômicas, fruto da expropriação e exclusão, são justificadas pela “capacidade de cada um”. O resultado é que temos uma participação ínfima de negros na condução da sociedade, o que restringe certamente a criatividade e aumenta os muros ideológicos a justificar a diferença.
Recorrer à justificativa dos “ciclos econômicos” é mais uma forma de escolher um angulo da história que autoriza a permanência das relações de dominação, sejam elas simbólicas, sejam efetivadas por ações da administração pública e seus agentes. Aos “ciclos econômicos” foram juntadas o desejo de dominação e justificação da diferença de forma hierárquica. Esta opção colocou determinados grupos como naturalmente no comando da sociedade mateense, enquanto outros servem a eles.
Olhemos para história do país e poderemos ver os diversos conflitos gerados pela defesa dos “ciclos econômicos”. Um dos exemplo é observado entre estado e populações europeias nas guerras mundiais, onde elas eram proibidas de usar sua língua e seus costumes em função da unidade nacional. Ou as Ações Afirmativas que buscam reverter os danos de séculos de escravização e produzir uma sociedade mais igualitária no presente e no futuro para todos, negros e não negros, mas que só encontram teóricos racistas de plantão encastelados em seus lugares de poder. Precisamos nos libertar destes pequenos lugares de poder que são alimentados pela ignorância e só produzem medo.



Box 1 – Ensinando a ser negro?

“Professores da rede estadual recebem formação sobre a identidade cultural dos negros
Capacitar professores da rede pública estadual de ensino para que possam inserir nas disciplinas que lecionam elementos da cultura e da história afro-brasileira. Esse é o objetivo do programa “Identidade Cultural do Negro” que será implantado na rede estadual de educação a partir de um acordo de cooperação técnica entre a Secretaria Estadual de Educação (SEDU), as prefeituras de Jaguaré, Conceição da Barra, São Mateus e Pedro Canário e a empresa Aracruz Celulose. O convênio será assinado nesta segunda (01), às 15h, no Pólo Universitário de São Mateus. O Acordo prevê que os professores desses quatro municípios participarão, a partir do dia 20 de agosto, de um curso com duração de 90 dias. Estarão envolvidos 293 profissionais do magistério que lecionam as disciplinas de Historia, Língua Portuguesa e Educação Artística para 24.857 jovens do ensino fundamental e médio, em 48 escolas, 30 estaduais e 18 municipais. Os professores serão capacitados através de uma série de palestras sobre a questão racial na sociedade, distribuição de livros sobre a história dos negros no Espírito Santo, pesquisas bibliográficas e pesquisas de campo. Também será realizado um concurso de redação voltado para os alunos das oitavas séries das escolas envolvidas, cuja premiação será um computador para cada aluno vencedor em seu município e sua escola.” (Fonte SEDU-ES. 01/08/2005)

BOX 2 – Onde acaba e começa São Mateus?
“No dia 13 de maio de 1888, acabou a escravidão no Brasil. Nesse mesmo ano, chegou ao Porto de São Mateus o primeiro grupo de imigrantes italianos, formado por aproximadamente cinqüenta famílias. Elas foram encaminhadas para os lotes demarcados no vale do córrego Bamburral, para a formação do núcleo de Santa Leocádia, a cerca de 20 km da sede do município. Essa região estava infestada de mosquitos que transmitem malária. Isso provocou a morte da metade dos primeiros colonos italianos. No primeiro mês não fizeram outra coisa a não ser enterrar os mortos.
Antonio Rodrigues da Cunha, o Barão dos Aymorés, conseguiu levar muitas famílias de imigrantes para trabalhar em suas terras como também o fizeram Constante Sodré e outros fazendeiros que se instalaram nas regiões mais altas, em terras mais apropriadas para a implantação da cultura do café. Utilizando a mão-de-obra italiana, Antonio Cunha pode então completar o sonho de formar sua grande fazenda na Serra dos Aymorés. No entorno do barracão utilizado como entreposto por Antonio Cunha, localizado a aproximadamente 30 km acima de sua fazenda na Cachoeira do Cravo, formou-se um núcleo urbano. Os italianos o denominaram Nova Venécia, para lembrar a cidade de Veneza, capital da região do Veneto, na Itália, de onde veio a maioria dos imigrantes”. (Fonte Wikipédia)




BOX 3 – Nós e os Outros
(...) O sapê tornou-se uma praga dominando essa região que ficou conhecida pelo nome de "Sapê do Norte". 
Os negros do Sapê do Norte, descendentes de escravos, viviam isolados, sem nenhum tipo de apoio oficial. Quase todos analfabetos, sem estradas, sem voz, sem vez, abandonados à própria sorte, viviam da fabricação de farinha, do plantio de pequenos roçados, da caça e da pesca. 
Os imigrantes [italianos] e seus descendentes, pouco a pouco foram ocupando algumas terras, comprando outras, no lado sul do rio São Mateus, entre São Mateus e Nova Venécia e avançando para o oeste. A mão-de-obra imigrante era utilizada na derrubada da mata para extração da madeira e implantação das lavouras de café. Também eram contratados para os serviços de construção civil, pois muitos eram pedreiros e carpinteiros. Favorecidos pela cultura européia, os imigrantes e seus descendentes mantinham uma vida mais regrada e com mais envolvimento religioso. Por terem mais conhecimentos, podiam produzir quase tudo de que necessitavam. Assim os italianos compravam apenas o querosene para iluminação, o sal, os tecidos e algum remédio, o que lhes garantia algum tipo de poupança, enquanto os negros precisavam comprar quase tudo, pois lhes faltava o conhecimento para produzir.(...) (Fontehttp://www.saomateus-es.com.br/site/)